UTILIDADE MARGINAL DECRESCENTE

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UTILIDADE MARGINAL DECRESCENTE

Mensagem  Susana Cabral em Sex Dez 12 2008, 18:58

Encontrado em: http://rabiscoseconomicos.blogspot.com/2007/07/necessidade-lgica-da-utilidade-marginal.html


A Necessidade Lógica da Utilidade Marginal Decrescente: ou como os austríacos explicam essa Lei
A lei da utilidade marginal decrescente foi desenvolvida pelos autores que foram considerados “revolucionários” por darem um novo rumo a ciência econômica. Jevons, Walras e Menger. Esses três autores parecem ter desenvolvido independemente um dos outros, durante 1871-74, a lei fundamental da revolução marginalista, qual seja, a Lei da Utilidade Marginal. A idéia básica é a de que uma unidade adicional de um determinado bem acrescenta, na margem, um “bem-estar” cada vez menor.

Embora Menger tenha sido um dos precursores dessa teoria, grande parcela dos economistas parecem não reconhece-lo como um membro importante da grupo que quebrou o paradigma da ciência econômica do século XIX. O maior problema de Menger é que ele era austríaco e, por isso, a difusão da sua idéia no meio acadêmico da época foi dificultado enormemente. As traduções do alemão, na época, demoravam muito mais para serem feitas do que hoje em dia.

Esse tratamento dado a Menger é um tanto injusto, pois penso que ele foi o que melhor fundamentou e explicou a Lei da Utilidade Marginal Decrescente. Os austríacos, embora rejeitem o uso da matemática no desenvolvimento da ciência econômica, também entendem que a economia pode ser reduzida a uma série de principios gerais, abstraidos da realidade, que constituem uma teoria da qual se obtém resultados através da derivações lógicas. Nesse sentido, os austríacos se aproximam dos neoclássicos. A vantagem dos austríacos, no entanto, é o uso verbalizado da lógica dedutiva, o que permite uma maior liberdade para desenvolver sua teoria e, de certa forma, pode fundamentar melhor seus argumentos. A dedução lógica verbalizada, portanto, acaba dando aos austríacos um grau maior de persuasão, pois não assusta o leitor com formalizações matemáticas muitas vezes complexas demais. No entanto, a principal vantagem do uso da matemática é a precisão dos conceitos e também a garantia de que não foram cometidos erros lógicos na construção dos argumentos.

Menger usou, para explicar o princípio da utilidade marginal decrescente, um exemplo que pode ser considerado um “exercício mental”, no qual o leitor consegue de fato ver as sutilezas escondidas na famigerada Lei. Ao contrário dos livros de Introdução a Economia e de Microeconomia, que explicam a Lei usando o exemplo das sucessivas e, por isso, enjoativas “barras de chocolate”, Menger prova que a Utilidade Marginal é necessariamente sempre decrescente e não apenas uma observação derivada da experiência.

Imagine que um fazendeiro possui quatro sacas de cevada, com as quais ele pode fazer, sem custo algum, uma série de bens. Digamos que, para fazer cada bem, ele gaste uma saca de cevada. Portanto, o homem só pode obter quatro tipos de bens. O fazendeiro, após algum tempo de reflexão, decide quais bens ele pretende produzir. Naturalmente, ele atribui utilidades diferentes para cada um dos bens. Digamos, por exemplo, que ele escolheu fazer com as sacas de cevada: pão, plantar novamente a cevada, alimentar seu cavalo e fazer cerveja. Esses, portanto, são os quatro usos aos quais ele atribuiu as quatro sacas de cevada. Digamos ainda, que ele valore os bens dessa forma:

1) Pão;
2) Plantar novamente a cevada;
3) Alimentar seu Cavalo;
4) Fazer Cerveja;

Agora vejamos, o que ele irá produzir com a primeira saca de cevada? Obviamente, como dizia Aristóteles, as primeiras coisas, primeiro. Ou seja, ele usará a primeira saca de cevada para saciar o seu desejo mais urgente, o pão. Com a segunda saca de cevada, ele irá plantar, com a terceira ele irá alimentar seu cavalo e, finalmente, com a quarta ele irá fazer cerveja. Note que cada saca, portanto, tem um valor diferente. A primeira saca, por ser destinada a sua necessidade mais urgente, terá um valor maior, a segunda terá um valor menor do que a primeira, mas maior do que a terceira, pois o fazendeiro prefere plantar primeiro a cevada e depois alimentar seu cavalo.

A idéia de Menger fica ainda mais clara quando introduzimos um outro personagem na história. Digamos que, por exemplo, alguns animais selvagens acabem devorando uma das sacas do nosso amigo fazendeiro. Agora ele só possui três sacas de cevada. Qual seria a necessidade da qual o fazendeiro abriria mão? É óbvio que seria a cerveja. O fazendeiro certamente não deixaria de fazer pão, ou plantar, ou alimentar seu cavalo pois elas são necessidades mais urgentes. Agora, a pergunta definitiva é, o quanto o fazendeiro valoriza uma saca de cevada a mais? A resposta é que ele valoriza uma saca a mais de cevada tanto quanto ele valoriza a cerveja. Ou seja, para o fazendeiro, uma saca de cevada a mais teria um valor menor do que as primeiras, pois esta saca será destinada a um uso “menos” urgente, qual seja, a produção de cerveja.

O princípio da utilidade marginal decrescente é uma necessidade lógica quando partimos do pressuposto que o indivíduo sempre tentará saciar a sua necessidade mais urgente primeiro. Essa sutileza se perde quando usamos o exemplo de “copos d´água” sucessivos, pois, nesse caso, o fim ao qual o indíviduo destina a água é sempre o mesmo, qual seja, saciar sua sede. Quando introduzimos fins alternativos, percebemos que o bem primeiro é o bem mais importante, pois irá saciar a necessidade primeira. O bem segundo é menos importante, pois saciará a necessidade segunda e assim sucessivamente. É mais ou menos assim que Menger explica para o leitor porque a Utilidade Marginal é decrescente.

Penso que essa seja a melhor forma de explicar para as pessoas tal princípio. Isso, no entanto, não invalida de forma alguma as formalizações e insights que nos foram dados por Jevons e Walras. Ao aplicar o cálculo diferencial-integral à economia, Jevons nos mostrou uma forma muito eficiente de “mostrar” a utilidade marginal em ação e permitiu análises que não seriam possíveis a partir das teorias de Menger. Os austríacos nasceram da mesma inquietação que os neoclássicos, qual seja, livrar-se do pardigma clássico que estava preso a idéia obsoleta do valor-trabalho. Por isso, considero os austríacos “irmãos” dos neoclássicos, pois, embora divirjam na metodologia e em alguns aspectos teóricos, ambos chegam a mesma conclusão em várias áreas da economia.

Susana Cabral
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